18 de set de 2009

Aprendiz de herbalista


Minha última aventura antes de voltar pro Brasil foi também uma lição prática do que são esses tais de green economy e green job e finalmente, como é um modo de vida sustentável e saudável.
Por um mês, fui aprendiz de herbalista, no meio da floresta californiana. Conheci Cara Saunders durante um workshop que ela deu sobre ervas medicinais, realizado numa fazenda em plena cidade de São Francisco. Me ofereci para ser sua assistente e ela topou. Combinamos de trocar trabalho por casa, comida e roupa lavada e um monte de aprendizado prático. Acertados alguns detalhes, consegui uma carona e lá fui eu pra Sawyers Bar.

A localidade fica no norte da Califórnia, às margens do exuberante Klamath River, e foi bastante movimentada durante a corrida do ouro. Hoje, tem apenas 54 habitantes, um centro comunitário e uma agência do correio. Qualquer mercado, café ou posto de gasolina fica a uma hora e meia de lonjura, depois de uma serra linda e perigosa.
Minha anfitriã vive no meio da floresta com o namorado Boone, nativo dali. Não há um fio de luz elétrica, como todas as casas da localidade, muita lenha e neve grossa no inverno. Eles criam 20 belas galinhas, um peru selvagem, duas labradoras, tem uma horta generosa com aspargos, repolho, feijão, alho, cebola, tomate, alface, cenoura, beterraba, batata, nabo, tantos outras verduras e legumes, tem árvores frutíferas e um jardim de ervas muito bem cuidado. Boone herdou tudo dali: é serrador, como o nome da cidade sugere (sawyer), minerador de ouro, conhecedor da mata. Cara tem 32 anos, nasceu em Chicago e mudou-se para o extremo norte da Califórnia para cultivar ervas.




É nesse lugar de ar puríssimo e beleza formidável que Cara planta, de maneira sustentável, todas as ervas medicinais com quem faz, artesanalmente, tinturas e pomadas, usando como base cera de abelha, óleo de oliva e álcool de uva orgânicos. A iluminação do laboratório é solar e todo o processo de maceração das ervas é manual.
A Bear Wallow Herbs tem cinco anos e há pouco a receita com a empresa superou os custos com as despesas domésticas. O produto mais vendido é o kit de primeiros socorros, com sete medicamentos para os mais diversos tipos de enfermidades. Cara trabalha meio período no correio do lugarejo e é de lá que mantém suas vendas pela internet e despacha encomendas mundo afora. Também participa de feiras e festivais na região, - desde a cidade de Portland até São Francisco - onde vende seus produtos, divulga o negócio, faz contatos, revê amigos, curte um show, vai às compras e fica com saudade de casa.
Morei por um mês numa cabana de madeira com lareira e banheiro biológico ao lado.
Ajudei Cara numa sorte de tarefas: refazer o jardim de ervas e a horta depois do implacável inverno, macerar ervas, fazer pomadas e tinturas, rotular embalagens, montar kits, organizar o laboratório, fazer cartões e cartelas informativas, dar comida para as galinhas, cozinhar. Participamos de duas feiras, uma em Ashville, no Oregon, outra em Mount Shasta, um lugar muito maluco e cheio de hippies esotéricos. Fizemos caminhadas pelas montanhas, ensinei-los a fazer pão, vimos filmes, contamos piadas, falei do Brasil, trocamos muito. Nasceu uma forte amizade e uma tremenda inspiração em seguir os passos de Cara (e de tantos outros jovens) rumo a um negócio bom pro bolso, pros outros, pra alma e pro planeta.